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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Tanto mar, tanto mar...


Sexta-feira, 09 de fevereiro de 2007, um aflição desmedida chegou ao fim. Fui sacudido por uma notícia que há anos esperava. Fui aprovado no curso de medicina da Universidade Federal de Alagoas. O crepúsculo da quase noite conflitava com a alegria que irradiava de mim, dissipando raios coloridos, os quais foram capazes de atingir a todos ali presentes, provocando uma embriaguez eufórica, que ganhou forma na expressão dos meus familiares e vizinhos, tomando-me de assalto.

Uma estranha lucidez me tocou ao ver os olhos verdes da minha mãe, aqueles olhos me diziam que um novo Fernando iria surgir. O amadurecimento chegaria desacompanhado dos louros da vitória. Entendi como se aquele momento significasse o nascimento de um filho planejado que há muito não vem. Todos comemoravam um novo ciclo, uma nova vida; inclusive eu. O nascimento foi vociferado por uma rouca voz que saia com dificuldade de um rádio cor de prata, que ganhou eco com um sonoro grito de todos os presentes naquela sala. O olhar da admiração de quem me parabenizava alimentava meu ego e alavancava minha vaidade, provocando uma névoa narcísica que tomou conta, chegando até a cegar. Envolto de elogios é difícil de enxergar longe. Havia tanto mar, tanto mar...

Nos primeiros passos na faculdade, percebi entre os colegas uma base predominantemente elitista, que preferia subir em um pedestal imaginário e de lá não descer mais. Durante o curso vi muitos colegas subindo mais alguns degraus desse pedestal, enquanto a minoria descia. O contato precoce com os pacientes nos deu a exata noção do enorme abismo social existente, e do nosso papel social, cabendo a nós decidir a quem serviríamos. O Centro Acadêmico Sebastião da Hora, através das pessoas que lá militam, foi fundamental para minha decisão de qual parcela da população irei servir.

De alguns mestres levarei comigo grandes lições, de outros nem tantas. As contradições entre o que alguns professores falam do que executam é algo que muito me incomodou durante o curso, talvez pelo medo de ser sugado por tamanha hipocrisia e torna-me também assim. Ao longo do curso há o delineamento da forma que nossos colegas irão atuar no porvir e isso é também algo muito intrigante, podendo ser decepcionante.

No olhar de cada paciente captei sensações diferentes, porém havia uma que era comum a todos. O desejo de ser tocado, ouvido atentamente, de sentir-se humano verdadeiramente. É na soma desses olhares que eu me reconheci, e vi um novo Fernando, como haviam profetizado os olhos verdes da minha mãe.

3 comentários:

  1. Apesar de os olhos da minha mãe não serem verdes e de eu não ter participado do CASH, vejo minhas próprias vivências nesse texto e tenho convicção de que é a realidade da maior parte de nossa turma.
    Lindo e emocionante. Parabéns

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  2. Obrigado Téo!
    Esse texto foi feito a partir de um pedido do Francisco, diretor da Famed, para que falasse sobre a medicina...
    Foi muito de batepronto,mas acho que ficou legal!
    Abraços

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  3. Legal. Somos o que queremos ser. A verdade encontra-se informe e escondida dentro de nós. Basta nos dedicarmos na sua busca e no seu formato. "Viver é melhor que sonhar"

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